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  • Ramon Cavalcante

quadrinhos não lineares

Atualizado: 25 de Nov de 2020

as histórias em quadrinhos não nasceram com o advento da impressão - como várias experiências em monumentos, tapeçarias e papiros por todo o mundo já demonstraram - mas com certeza foi um marco na produção (e consolidação da linguagem) da arte sequencial.


esse fato acabou engessando a maior parte das experiências narrativas - com gratas exceções, como a obra de Chris Ware - dentro do que se entende por literatura impressa. Leitura da esquerda superior para direita inferior, linha por linha - no ocidente, no oriente isso inverte, mas continua mantendo uma ordem que não nasceu com os quadrinhos - mesmo depois do segundo grande advento tecnológico com impacto narrativo nos quadrinhos: a internet.

a internet é a primeira grande mudança na forma como nos comunicamos que abre tanta possibilidade narrativa e de alcance para os quadrinhos quanto a imprensa. mais barato de se produzir (embora ainda difícil de monetizar), com ferramentas mais fáceis de se dominar do que todo o processo de impressão, mais fácil de distribuir e, acima de tudo, com possibilidades narrativas praticamente infinitas.


mas a maior parte da produção de quadrinhos para a internet ainda são muito atrelados ao modo de leitura do impresso. pdfs com "viradas de página" tal e qual a obra impressa - muitas vezes até seguindo formatos padrão de impressão, que são pensados a partir do corte de papel industrial sem desperdício - compõem a maior parte do que chamamos de webhq no Brasil e no mundo.


essa inquietação me perturba muito, testar outras formas de leitura, criar e fortalecer novas formas de ler nessa página potencialmente infinita e cheia de recursos que é a web. se aproximar dos usos, cruzar os percursos de leitura e pegar o leitor desprevenido.


o projeto barafunda nasceu dessa inquietação, assim como outras experiências menores - como o "sem começo sem fim" que publiquei no perfil @quadrinhosinofensivos no instagram -, da ideia de causar estranhamento, de não oferecer o corrimão de leitura habitual que é essa guia invisível da esquerda para direita, de cima pra baixo e ver como o leitor se comporta diante de uma página que não lhe orienta. qual a sequência de imagens que cada um lê, onde se para e qual a relação que se traça entre as images? (são fatos sequenciados numa linha cronológica direta? lembranças se sobrepondo ao cotidiano? uma miscelânea de coisas que aconteceram em tempos diferentes?


acho que essas experiências são uma pequena fagulha de aspectos da web que podemos explorar nas histórias em quadrinhos. insignificantes, inclusive, mas que se arriscam em algumas direções desse vasto terreno em branco. a não linearidade em histórias em quadrinhos na web - ou pelo menos linearidades mais complexas - é um elemento riquíssimo ainda a ser muito explorado nessa linguagem.

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